Yo no soy cápitan, soy marinero

“Se aparece uma situação difícil, o comandante deve ter tudo sob controle. E estar onde é necessário”. A frase é do capitão Francesco Schettino, em entrevista concedida a um jornal tcheco (“Dnes”) em 2010. Já em 2011, neste ano, e mais precisamente no início desta semana, ele escorregava “acidentalmente” em direção a um bote que o levaria para longe do navio Costa Concordia. Enquanto isso, o transatlântico lentamente afundava com tripulantes e passageiros a bordo.

 Transatlântico Costa Concórdia

Transatlântico Costa Concórdia

O poeta Fernando Pessoa, verdadeiro sábio, sacou tudo isso quando escreveu seu “Poema em Linha Reta”:

Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado,
Para fora da possibilidade do soco;
Eu que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu que verifico que não tenho par nisto neste mundo.

Toda a gente que eu conheço e que fala comigo,
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu um enxovalho,
Nunca foi senão – príncipe – todos eles príncipes – na vida…

Quem me dera ouvir de alguém a voz humana,
Quem confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,

Arre, estou farto de semideuses!
Onde há gente no mundo?

Então só eu que é vil e errôneo nesta terra?

Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos – mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que tenho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.

Antes de uma pelada não é difícil encontrar quem diga aos quatro ventos que vai matar a bola no peito e resolver o jogo; “Só jogo truco apostando dinheiro! Ganhei campeonato do centro acadêmico na faculdade”, dizem alguns para os sobrinhos de 9 anos; ou, então, comum ouvir os brados do outro que, caso tomasse o timão para si, colocaria a embarcação pra deslizar no mar – fácil como colocar um patinho de borracha para boiar banheira: “Yo no soy marinero, soy cápitan”.

Pura empáfia. É claro, todo mundo quer ser capitão, e, afinal, ninguém quer ser se sujeitar a ser um mero operador de embarcação ou então a ficar limpando o convés. É o desejo humano de poder, sem observar as virtudes necessárias para seu exercício. Mas, quando o tempo aperta, a tormenta se avizinha, o banco de areia se aproxima perigosamente ou a manobra matreira não sai exatamente como o planejado, a responsabilidade se torna esmagadora. É neste momento, então, que as condecorações são prudentemente jogadas ao mar. Todo mundo quer ser comandante se puder saltar do barco a qualquer tempo.

"Narciso", de Caravaggio

"Narciso", de Caravaggio

Um navio afundando vira uma espécie de estado de guerra que se encontra dentro das fronteiras de um estado social. É a tensão entre a selvageria e a civilidade. Grandes acidentes certamente ocasionam a aproximação dos homens, que se unem para melhor reparar os danos. Ao mesmo tempo, é nas catástrofes que a essência aflora, o instinto dá suas caras e então podemos realmente medir o quanto de urbanidade e civilização cada um de nós conseguiu absorver.

Enquanto em plena luz do dia se comiam trufas e ostras na costa italiana, durante a noite se disputava à cotoveladas um lugar no bote (pra quem duvida, leia esse relato: http://www.jcnet.com.br/noticias.php?codigo=228751). Por outro lado, consigo imaginar os músicos do Titanic em frente a uma platéia desesperada e, sem aplausos, tocam seus instrumentos, até que o mar engula por completo a embarcação. Isso sim é glória à civilização: “Mozart, até que as ondas nos separem!”. Acabada a sinfonia, voltamos ao salve-se quem puder.

Mas os heróis não foram, não são e não serão os capitães, nem mesmo os comedores de trufas, coitados. Capitães, quando necessário, preferem ir à deriva ou se meter debaixo dos lençóis; passageiros, reféns do acaso e do desastre, apenas buscam salvar suas vidas.

Quem, então, recupera a dignidade? Um marinheiro campano durão que se encontra no continente, um tripulante peruano de sobrenome Morales, talvez um músico.

Gregorio De Falco grita “Vada a bordo, cazzo!” para o mundo inteiro, frase que ressoa em cada ouvido humano. Não é à toa que sua mulher Rafaella deu a seguinte declaração: “A coisa preocupante é que pessoas como o meu marido, que simplesmente cumprem o seu dever a cada dia, viram rapidamente heróis e celebridades neste país. Não é nada normal. (…) Há tantos marinheiros campanos que são como De Falco dos quais ninguém fala, tantos marinheiros valentes que não se comportam como o comandante Schettino e não merecem esse rótulo”.

A voz imperativa de De Falco é como um pesado martelo da consciência, que insiste em nos lembrar que ainda esperamos um pouco de virtude nesse mundo. Não adianta adiar: um dia inesperado, num cruzeiro, num incêndio, no trabalho, na rua – enfim, um dia qualquer – esse martelo poderá nos golpear, em alguns com mais e em outros com menos força, e então que se verá quem possui os brios para contornar a situação ou aguentar o sopapo. Sejamos, então, um pouco mais como os marinheiros heróis, e um pouco menos como os capitães medrosos.

Anúncios

One Response to Yo no soy cápitan, soy marinero

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: