Corpo são, mente enferma

Por Thiago

"A Pele que Habito", Filme de Almodóvar

"A Pele que Habito", Filme de Almodóvar

A pele é realmente fantástica: é uma camuflagem, uma materialidade, uma fantasia, uma aparência, um significante que pode esconder o significado. Mas o que, de fato, habita nossa pele?

O mais curioso – ou desesperador, para outros – é que, se dependermos exclusivamente da natureza, não podemos dispor de nossa pele, não podemos abrir mão de como somos externamente. Mudanças naturais são possíveis, obviamente, mas comumente escapam ao nosso controle e dificilmente, quando propositais, chegam ao ponto de tornar alguém irreconhecível.

Calma pessoal, não é preciso chorar e sair quebrando todos os espelhos da casa. É claro que o atual estágio da medicina possibilita definição abdominal sem um exercício sequer e implantes de silicone nas nádegas. Alguns até viram Michael Jackson após algumas horas no bisturi. Ah, o milagre da ciência!

Antes que fiquem ofendidos ou pensem em me jogar na fogueira, quero ressaltar que não estou crucificando ninguém que já fez ou é a favor de procedimentos estéticos.  Pelo contrário, se a pessoa se sentir feliz ou mais realizada porque corrigiu alguma “imperfeição” (como se a natureza incorporasse ou pensasse sobre esse conceito), ou porque se sentirá melhor, acho ótimo. O que vale, neste caso, é a autoestima e a felicidade pessoal. Opto pelo clichê: “a pessoa tem que se sentir bem consigo mesma”, dizem por aí. Concordo.

Mas o que, afinal, é se sentir bem “consigo mesmo”? Chama a atenção que o cuidado extremo com as aparências externas camufla, muitas vezes, a reflexão daquilo que é interno. Isso mesmo, compramos os livros pela capa. É como um esquecimento proposital: cuida-se do corpo para não se cuidar da mente. Não é papo de recalcado ou de gente feia com dissabores da vida: uma necessidade estética permanente e obsessiva é uma felicidade efêmera. Nem vou entrar na discussão se durante a vida somos felizes com momento de tristeza ou, como quer Heidegger, se somos eternamente angustiados com momentos transitórios de felicidade – essa discussão fica para outro post.

O que importa é que diante dessa obsessão a felicidade depende exclusivamente do constante agarrar das coisas externas, como um macaco pulando de um galho para o outro. Fatalmente deixarão de segurar em um ou outro galho, e o chão estará a uma altura considerável: eis um tombo monumental. Em outras palavras, a felicidade para aquele que tem cuidado compulsivo com o externo depende, exclusivamente, daquilo que é efetivamente externo: pode parecer redundante ou tautológico, mas depender de coisas que estão fora de nosso alcance e controle para sermos felizes é arriscar-se demais à infelicidade.

Voltando brevemente ao papo da “imperfeição”, lembro que a natureza não incorpora ou pensa sobre esse conceito. Isto significa e, além disso, demonstra, que a idéia “perfeição” ou “imperfeição” é, na verdade, um produto humano. Se quisermos pensar um pouco mais sobre isso, é uma construção cultural (e, portanto, humana) que se baseia na comparação de coisas, ou seja, já é reflexão – só há perfeição se houver um modelo, e esse modelo varia historicamente e socialmente. Me parece que o modelo de perfeição em voga é, então, um trabalho ideológico, já que é globalizado, e molda e contamina o mundo inteiro.

Quadro de René Magritte

Quadro de René Magritte, "Le Faux Miroir"

Não é muito lembrar que os gregos, no século IV a.C., continham uma divisa no templo de Delfos (do deus Apolo, da sabedoria): “Conhece-te a ti mesmo”. Vejam bem, meus caros e minhas caras, se trata de uma tentativa de, ao menos, realizar um exercício de reflexão, de conhecimento de si – e, por quê não?, dos nossos semelhantes. Sócrates e Platão tentaram tornar o lema popular, sabendo, mesmo assim, que a missão não seria fácil. Para Sócrates, de fato não foi: condenado à morte pela cidade, bebeu cicuta.

“Corpo são, mente sã”? Raridade. O poeta Juvenal pediu que os romanos orassem por uma mente sã num corpo são, necessariamente nesta ordem. O que se vê por aí é a apropriação e interpretação indevida do trecho.

Não se trata de hipocrisia, apologia à feiura, ataque à estética contemporânea ou então um apelo desmedido à introspecção e ao cultivo intelectual, mas simplesmente provocações. E elas habitam minha pele.

E você, já pensou sobre a pele que habita?

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6 Responses to Corpo são, mente enferma

  1. brunoignoto says:

    Iria escrever sobre o filme “A pele que habito” do Almodóvar, mas aproveitando o post resolvi escrever sobre outra coisa, que nao deixa de estar correlacionada.
    Porque sera que a pele, esta entidade biologica, é algo tao importante para nós???
    Do ponto de vista biologico é a primeira barreira de proteçao contra outros organismos que poderiam ser nocivos a nossa existencia, pois evita a contamiçao e proliferaçao dos mesmos em larga escala que nos levaria à infecçoes e possivelmente choque septico e na pior das hipoteses a morte (de uma forma bem simplista e resumida, já que nao quero me alongar muito nesse ponto). Mantem a homeostase termica e hidrica de nossos corpos, nao permitindo dessa forma que ocorra desidrataçao, hipotermia ou hipertermia, nos protege dos raios solares e de seus efeitos deleterios contra as celulas de nosso organismo.
    Do ponto de vista psicologico, é o que nós faz reconhecer a nós mesmos e aos outros, a transfiguração da pele pode acabar com a mente de uma pessoa, assim como a negaçao da mesma. Transformaçoes rapidas. impostas por circustancias externas fora do controle da pessoa em questao, podem culminar em disturbios psiquiatricos quando nao acompanhados de perto, e mesmo quando ha o acompanhamento, como automutiliçao, depressao, disturbios de personalidade e outras, Tirando a pessoa do convivio social.
    Do ponto de vista social, é o nosso “cartão de visita”, o primeiro aspecto que sera analisado pelos outros, o que nos permite sermos aceitos em certos grupos e atrai certas pessoas. O modo como a pele se apresenta é a forma como a sociedade o entende, estamos a todo momento tentando adequa-la a situaçao que sera vivenciada, seja numa festa, entrevista de emprego, com amigos e familia. Adequamos essa camuflagem, melhor que um camaleao em minha opiniao, para sobreviver à convençoes sociais. Mesmo aqueles que se dizem desapegados a pele ou a usam como forma de protesto, atraves dela gritam e esbraveiam “Não faço parte ao modelo imposto!”, usando a como forma de se rebelar e agredir aqueles com que nao concordam.
    Do meu ponto de vista, é mais facil se apegar a pele que habito do que ao que habita a pele, pois isso requer um conhecimento maior, mais tempo e reflexao, algo muito mais trabalhoso e dificil. Conhecer o habitante de uma pele, e nisso incluo o habitante de nossas proprias peles, nao é uma tarefa muito agradavel. Pois ao chegarmos nesse ponto encontramos traumas, defeitos e dogmas que nao sao bonitos de se ver, mas e se nao o fizermos? Nao nos estaremos privando de conhecer a genialidade? Nao estaremos privando o mundo de conhecer tal atributo? Portanto, a quem estiver perdendo seu tempo em ler esse texto, eu lhe faço um convite: Converse com o habitante de sua propria pele, e ouça o que ele tem a dizer!!

    • Thiago says:

      Ig, gostei bastante do seu texto, trouxe umas reflexões que não havia pensado. Essa questão da pele do ponto de vista biológico e as implicações psiquiátricas é muito interessante, e acho que está muito relacionada com o filme.

      Gostei muito do seu texto. Trouxe um ponto de vista diferente, mas ao mesmo tempo complementar, daquele que está no post!

  2. Ignoto says:

    Thi, agora falando do filme diretamente, achei um filme muito bom, mas extremamente perturbador!!! O que me incomodou mais nao foram as cenas do filme, que sao bem fortes, mas a ideia de que a mente de um ser humano pode chegar a imaginar, e espero que seja apenas imaginaçao, uma coisa daquelas. O contraste entre a genialidade e maldade das pessoas retradada ao longo da historia foi muito bem demonstrado. Tudo no filme se aproveita!!! Depois fui ler a sinopse e realmente nao faz juz ao que é o filme!!!
    Nao sei se voce já assistiu, mas se nao tiver assistido, veja “El secreto de sus ojos” de Juan José Campanella, é um filme muito bom e como voce me disse, nao vou falar nada sobre ele pra nao estragar. Assiste e depois a gente discute!!!!

    • Thiago says:

      O filme do Almodóvar incomoda muito, é um filme, por assim dizer, “maldito”. Fora que o suspense dura filme inteiro, há uma certa tensão, fiquei afundado na cadeira durante toda sessão. E as sinopses, e mesmo o trailer, não conseguem chegar nem perto do que é o filme (a bem dizer, a sinopse e o trailer podem estragar algumas surpresas – é se trata de um filme que é bom assistir sem expectativas).

      Assisti o filme do Campanella sim, já faz um tempo e não me lembro de detalhes, mas gostei muito (também pensei nele quando vi “A Pele”!!!!!). Achei o filme muito bonito, na verdade (apesar da descoberta final), diferente do filme do Almodóvar, que é tenso.

      Tem um filme com o ator Ricardo Darín (o mesmo ator do “O Segredo…”) chamado “Um Conto Chinês”, estava nos cinemas até a pouco tempo atrás (pode ser que ainda esteja passando em alguns lugares), recomendo muito. Os argentinos mandam bem no cinema.

      Falando em histórias simples e muito bem contadas, gosto muito do Woody Allen (principalmente dessa nova leva de filmes “europeus” dele) e do Clint Eastwood (em especial “Gran Torino” e “A Troca”). Você gosta destes diretores?

  3. Ignoto says:

    Gran Torino e A Troca sao muito bons!!! Os filmes do Woody Allen, alguns eu gosto outros nem tanto!!!! Um Conto chines, a lua queria ver esse filme mas optamos pelo do Almodovar, ainda tava em cartaz la no kinoplex!!!
    O filme do Campenalla é realmente bem mais suave, apesar do inicio perturbador, tem uma narrativa bem mais amena e tranquila, mas a descoberta final me deixou no mesmo estado do filme do Almodovar, é tao insano quanto, doentio, outra coisa que pra mim é surreal. Essa relaçao que os personagens dos dois filmes estabelecem mostra a enfermidade da mente humana!!!

    Agora o “A pele que habito” te prende na cadeira o tempo todo mesmo, é uma agressao aos seus sentidos e sentimentos, achei otimo! A tensao se mantem durante toda a historia e voce nao sabe ao certo de quem ter pena ou se é pra ter pena de alguem, pelo menos foi assim que me senti! A cada passagem do filme o seu ponto de vista em, relaçao aos personagens, vai mudando e no fim eu só queria que acabasse aquela loucura, que tudo tivesse um fim, nao importando qual seria ele, mas que chegasse. Nao consegui torcer por nenhum personagem ou desejar algo de bom para qualquer um deles! Mas tambem nao queria o mal de nenhum, isso que eu acho de muito bom no filme, conseguir evocar a dualidade que existe dentro de nós, pois normalmente os filmes tem personagens com intuitos bem delimitados, o mocinho e o bandido, um é para ter todas as glorias e o outro o onus! E o mais triste que no final das contas o personagem que era mais honesto com ele mesmo é o Zeca! Bizarro! De sua apariçao ate sua despedida do filme ele é o que é, nao tentando mostrar outra coisa!!!

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