A Democracia da Academia

Por Thiago

Nada melhor para começar esse infame blog do que uma notícia que tem mexido com as pessoas e causado polêmica: a ocupação da PM na USP e a ação dos estudantes. Fato é que a condução do assunto tomou caminhos e formas tão tortas e disformes que as divergências são muitas, e me parece que ambos os lados podem colher argumentos espalhados e usá-los na discussão.

No post anterior havia dito que os leitores ficariam indignados ou admirados (se é que ambos sentimentos não são, no fundo, a mesma coisa). Meu palpite, meus caros e minhas caras, é que esta primeira reflexão causará mais indignação. Para os que se sentirem admirados, entretanto, agradeço a piedade, e rogo que leiam novamente o artigo para ver se não entenderam errado.

PM e estudantes na Praça do Relógio

Em primeiro lugar, devemos considerar que a maioria das pessoas que opinam sobre o assunto provavelmente se informam apenas pelos grandes meios de comunicações e pelos jornalões. Não, não estou falando do Datena e Ratinho, pessoal. Também não quero julgar ninguém, mas, claro, é muito legal falar mal da Globo e da Veja quando nos é conveniente (para mim é sempre conveniente), mas elas também informam notícias que muitos “desejam” ouvir e acreditar. É o oportunismo natural, quase uma crença seletiva: quando quero acreditar em algo, escolho no que acredito e pronto. Quando não servir mais, melhor pecar. E, afinal, é muito fácil e comum cair na contradição de apelar pro moralismo e chamar todos alunos da USP de maconheiros e desocupados, e logo em seguida dizer que a maioria dos alunos querem a presença da PM no campus, como muito se tem divulgado. Qual é a lógica disso? Levando em conta apenas esse primeiro ponto, vemos que a discussão já fica prejudicada.

Em segundo lugar, as pessoas se esquecem de tudo muito facilmente. Vejamos a bola de neve que vem se formando e culminou nos últimos acontecimentos. O atual reitor da USP foi escolhido arbitrariamente, de maneira legal, mas flagrantemente ilegítima: ficou em segundo lugar na votação interna da USP, mas o então governador José Serra colocou seu dedo e atropelou completamente a decisão das classes uspianas, coisa que não acontecia desde Paulo Maluf, em 1981, época da Ditadura (http://noticias.r7.com/vestibular-e-concursos/noticias/governador-de-sao-paulo-escolhe-o-segundo-colocado-em-eleicao-para-reitor-da-usp-20091113.html). O mesmo Rodas que, quando reitor do Largo São Francisco (agora é persona non grata lá), mudou a biblioteca na surdina, prejudicando o acervo, a pesquisa e estudo dos alunos da mais antiga faculdade de Direito do Brasil (http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,em-meio-a-acusacoes-alunos-de-direito-reclamam-de-biblioteca-,779765,0.htm). Sem contar que ele utiliza de aparatos formais da faculdade para fazer seus ataques políticos (veja a mesma notícia, parte dos boletins da reitoria). Também foi o mesmo Rodas que não fez nada para tentar colocar um metrô dentro da USP (como a professora da FAU Raquel Rolnik explica em seu blog: http://raquelrolnik.wordpress.com/2011/03/28/estacao-butanta-por-que-o-metro-nao-chega-dentro-do-campus-da-usp/).

Finalmente, o atual reitor assinou o convênio com a PM, menosprezando o pedido de departamentos (como o da FFLCH, que se não for o maior é um dos maiores da USP), que queriam dialogar, e resolveu fechar o acordo sem ouvir boa parte da comunidade da universidade. Bela democracia, bela participação dos universitários, bela participação da sociedade.

Por outro lado, os estudantes não têm usado todo o seu potencial de inteligência (sic) para serem ouvidos. Há também o problema dos partidos ultra-radicais que habitam a USP, que não ouvem. Embora seja louvável a politização dos estudantes e o próprio desejo de se manifestar, as ações têm sido desastrosas: ao invés de esclarecerem, obscurecem e prejudicam os fatos e a própria imagem do movimento estudantil. O que fazer então? Difícil, mas há por onde começar. Por que não promovem debate com os professores, chamando todos para ouvir, inclusive mídia? Ora, os professores da FFLCH, por exemplo, são um dos o maiores (senão o maior) patrimônios do departamento, e com certeza estariam abertos a debater e ajudar, diante da situação.

Não me surpreende tantas pessoas espinafrando o movimento da FFLCH (majoritariamente) em comentários, mídias sociais e etc. É óbvio que a condução do assunto pelos estudantes que invadiram a reitoria foi errada, mas isso só desvia o foco do problema principal. Lamentável a depredação do patrimônio público, mas e o resto? E o patrimônio político?

Pessoas, por favor, menos moralismo e menos raiva.

Ah, claro. Por favor, esqueçam que a PM estava na porta da biblioteca revistando estudantes e que parava os professores na entrada do estacionamento para revista e abordagem. Muito normal tal procedimento num ambiente universitário.

Não estou reclamando. Além da desinformação e do (de)serviço da mídia, o brasileiro sofre de amnésia política grave, não é acostumado com reivindicações e nem a contestar decisões políticas verticalizadas. É aquela coisa de conformismo mesmo.

Seguem alguns vídeos:

PMs sitiando o CRUSP (Conjunto Residencial da USP), que abriga estudantes que necessitam de moradia:

http://www.youtube.com/watch?v=urYLED8rubc

http://www.youtube.com/watch?v=LSwrqEiVOv4

A desastrosa invasão da reitoria:

http://www.youtube.com/watch?v=RR6j5aakExg

Reportagem UOL com ambos vídeos, PM e alunos:

http://noticias.uol.com.br/ultnot/multi/2011/11/08/04024E1B3272D4912326.jhtm?videos-da-pm-e-de-alunos-mostram-acao-da-policia-na-usp-04024E1B3272D4912326

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4 Responses to A Democracia da Academia

  1. Ignoto says:

    Bom eu acho que é uma sequencia de erros de ambos os lados!!! Todos nós conhecemos o pais em que vivemos, a arbitrariedade faz parte de nosso dia a dia, o descaso com aspectos sociais é notorio e publico, é uma herança deixada a nós por geraçoes passadas, que nem sei se posso dizer que sao passadas pois muito deles se perpetuam no poder. Não sei ao certo como pensar ou agir frente a tal situaçao, já que temos nossa parcela de culpa por deixar chegar a tal ponto. Tentar fazer com que uma sociedade habituada com um sistema baseado em coronelismo, na minha opiniao é assim que o Brasil ainda ve seu sistema politico, mude requer muito tempo e educaçao. Tempo nós temos, mas e a educçao??? Como podemos esperar que o sistema atue contra ele mesmo?? Nao é interessante, ele tem a nitida impressao de impunidade e soberba e nao agira contra ele mesmo! Por outro lado, como levar a serio manifestaçoes que deveriam prezar por sua integridade e na mensagem que querem passar, quando tudo vira bagunça e festa, tornando se o lobo de si mesma, dando força e abertura para criticas e difamaçao de seu proposito. Se a intençao é mudar uma situaçao nao podemos nos basear ou repetir erros daqueles de que discordamos, devemos estabelecer o nosso proprio padrao!! Nao é porque outros agem errado que devemos fazer o mesmo, pois se for isso nao estamos mudando mas sim apenas trocando seis por meia duzia. Me recuso terminantemente a levantar uma bandeira de pessoas que nao se levam a serio, eu sei que muitas vezes é dificil e que precisamos de alegria, mas acima de tudo precisamos nos mostrar maduros e prontos para assumir uma posiçao perante a sociedade.

  2. Thiago says:

    Ig, acho também que houveram erros de ambas as partes. O problema é quando só uma das partes toma o pau.

    Além disso, a sociedade sempre preza pela “ordem”, não é mesmo? A mudança passa, com certeza, pela educação, mas vai além dela. è preciso uma transformação cultural completa. Como fazer isso? Não tenho a mínima idéia e não sei nem mesmo se ela é possível.

  3. brunoignoto says:

    Concordo com vc Thi, é um problema quando uma parte apenas sofre. Tabem acho que deve haver uma transformaçao cultural completa. Mas acho que para podermos revindicar algo assim, devemos nos manter integros e entender as regras do jogo, mesmo sendo regras que nao participamos em sua formulaçao.Infelizmente o lado mais fraco sempre sera desfavorecido, entao como fazer dessa fraqueza uma força?? Nao sou contra a manifestaçao, só acho que dever ser feita de uma forma seria e como eu disse anteriormente, sem espaço para erros. Certas coisas sao previstas, que os estudantes teriam seu credibilidade abalada é esperado, toda historia necessita de um monstro, entao por que assumir esse papel??
    É logico que a midia iria usar apenas de momentos “infames”, por assim dizer, para valorizar o lado a que ela interassa, que acima de qualquer um é o dela mesma, entao pra que dar essa oportunidade. A sociedade brasileira é tacanha e moralista, adora um escandalo e achar um bode expiatorio para tudo, falta critica!!!

  4. Thiago says:

    Concordo com você também, a invasão da reitoria também foi, ao meu ver, desmedida. Além disso, se deu de maneira bem diferente daquela que ocorreu em 2007.

    Acho que os estudantes tem diversas outras formas de reivindicar, e as ações do movimento estudantil, já que você citou o assunto no seu primeiro comentário, sempre são marcadas por “festas”, músicas e etc. Isso é uma característica destes movimentos, e não acredito que seja de todo ruim.

    Mas, enfim, seria uma boa hora de pensar que ações poderiam ser tomadas para chamar a sociedade ao debate e também repensar a maneira de se manifestar. Vai rolar uma “aula pública de democracia” no MASP no dia 27, se não me engano. Já é um bom começo.

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