Quem são os loucos?

"Nau dos Loucos" (1503-1504) , de Hieronymous Bosch

"Nau dos Loucos" (1503-1504) , de Hieronymus Bosch

Hieronymus Bosch vivia num período no qual o sentimento geral era de que as coisas não iam bem para o gênero humano. Numa época em que se fazia sentir que o destino dos homens chegaria a um fim, Bosch resolve retratar a loucura, aflorar a bestialidade – não residual, mas muito presente nos indivíduos.

A “Nau dos Loucos”, entretanto, como explica Foucault em sua “História da Loucura”, é um quadro que apesar da carga onírica baseia-se na realidade então vivida na Idade Média: escorraçados para fora dos muros das cidades, os loucos eram retirados das municipalidades e forçados a embarcar na absurda nau.

Mais a frente em seu livro, Foucault ainda escreve que na Idade Clássica os Hospitais Gerais, instalações nas quais durante muito tempo foram jogados os leprosos, começam a abrigar miseráveis, pobres, ociosos, marginais, subversivos, pecadores, ou seja, era um aparato de repressão que pouco tinha a ver com a loucura como patologia: “(…) o Hospital Geral não se assemelha a nenhuma idéia médica. É uma instância da ordem, da ordem monárquica e burguesa que se organiza na França desta mesma época”.

Para os mais radicais ou para os xiitas da filosofia estrutural, aviso desde já que minha intenção não é fazer uma análise detida ou uma leitura filosófica mais acurada da obra de Foucault (se não for verdade que, de certa maneira, a reflexão a partir de um texto já é uma espécie de filosofar). Apenas tomo emprestado alguns exemplos da obra para melhor ilustrar esse texto postado num blog lamentável que tem como título “Os Mentecaptos”. Portanto, não há muito que esperar, caros leitores e caras leitoras, e pouca esperança resta. Dito isto, sigamos em frente.

 

 

Interessante notar que Foucault escreveu o livro em 1961, um ano antes do lançamento do livro “Um Estranho no Ninho” (1962), de Ken Kesey, que mais de uma década depois viraria um brilhante filme estrelado por Jack Nicholson. Como todos devem saber, os loucos ainda nesta época não eram lá tratados de maneira decente, humana, médica: o uso do eletrochoque era indiscriminado e o confinamento e retenção eram comuns. Mas voltemos ao filme: a película conta a história de McMurphy, um preso que termina por se encontrar num hospício, já que não queria cumprir seu trabalho forçado na penitenciária. O personagem é um mistério, incompreendido pelos médicos e pelos funcionários do local, mas o que o espectador pode constatar é que aos poucos ele é capaz de mudar, para melhor, a vida dos “loucos” do hospício. Sua “subversão”, a não obediência às rígidas regras e rotinas impostas, acaba por se contrastar com a moralidade da feroz enfermeira, que exigia a perfeição e vassalagem aos comandos que proferia. Obedecer, obedecer, obedecer (e, de vez em quando, fingir uma democracia)! Os espectadores simpatizam com o personagem de Nicholson e fica claro ao final que ele não era insano, mas que, jogado de um lado para o outro, era um pária para a sociedade; mais ainda, os próprios loucos do hospício já não parecem tão loucos quanto a enfermeira raivosa.

Quem, afinal, são os loucos?

 

 

Já em 1959, dois anos antes de a “História da Loucura”, François Truffaut lança seu primeiro trabalho para o cinema, “Os Incompreendidos”. Um pequeno menino de 14 anos de idade não consegue se adaptar aos métodos autoritários de sua escola; sua mãe deixa claro que gostaria de ter feito aborto; seu pai o renega; enfim, vive como um rejeitado por tudo e todos, dormindo no hall de entrada de seu angustiante micro studio parisiense. Seria melhor se assistisse o teatro de marionetes e se divertisse, como tantas outras crianças. Mas, insubmisso, resolve sair pelas ruas de Paris e apronta pequenas molecagens, o que lhe rende uma pena, e é enviado para o reformatório. Isto é, será que é ele que precisa de reforma? Mas o sistema o pune: sua insubmissão precisa ser controlada e é tratado, então, como se fosse um louco, um incompreendido, e vai preso.

Mas quem são os loucos?

 

 

Finalmente, muito tempo depois, em 1989, Peter Weir filma “Sociedade dos Poetas Mortos”. Em Welton, uma escola moralista, autoritária e repressora, os alunos são preparados para entrar nas melhores universidades (assim como em alguns países (sic) as escolas ainda continuam preparando seus alunos, como máquinas, para os vestibulares, numa competição insana no mercado de educação). Uma pequena alegria chega aos estudantes quando é anunciado um novo professor, o “Capitão” Keating, um verdadeiro rebelde que, vejam só leitores e leitoras, faz os alunos se interessarem por poesia (vejam esse vídeo do Leminski: http://www.youtube.com/watch?v=0gm8BCMki64)! Walt Withman, Byron e, simbolicamente, Thoureau, que escreveu “A Desobediência Civil”, são citados ao longo do filme. A fagulha que instiga os alunos a pensarem sobre o que os cerca e sobre o que pode ser a vida (que ela pode ser diferente, minha gente!) é o suficiente para que o colégio inicie uma política de repressão e para que os pais, representando um moralismo típico, comecem a puxar suas cintas. Ah, garotos de Welton…não se pode começar a refletir e a criticar os costumes sem se sentir as conseqüências (como exemplo, vejam como terminou a história de Sócrates em http://osmentecaptos.wordpress.com/2011/11/18/corpo-sao-mente-enferma/). Assim como em “Os Incompreendidos” e como “Um Estranho no Ninho”, se os alunos da Academia Welton parecem loucos ou apáticos no começo do filme, já que confinados a regras estritas e a certo rigor moral, no final do longa parecem mais sãos, livres e maduros.

Pergunto, então: quem são os loucos?

Estamos em 2012, mas assim como a nau pintada por Bosch em 1503, as sociedades possuem seus mecanismo de exclusão e aparatos de repressão, ou, ainda, soluções violentas e ineficientes para lidar com aqueles que são “diferentes”. Em todos os cantos do planeta, as sociedades de hoje ainda teimam em querer enfiar numa embarcação todos os escorraçados, incompreendidos, marginais, todos os seus McMurphys, viciados em crack, todos os pinheirinhos e todos aqueles que não se adaptam a uma realidade. Ah, se pudessem fazer isto: sem dizer adeus aos passageiros do barco que parte, dormiriam tranqüilos os cidadãos de bem, todos esses sãos que se encontram no continente, aliviados.

Quem são os loucos?

Uma imagem vale mais do que mil palavras…

Retirado de http://www.facebook.com/#!/photo.php?fbid=136822413103424&set=a.112890558829943.12992.100003269988452&type=1&theater

Yo no soy cápitan, soy marinero

“Se aparece uma situação difícil, o comandante deve ter tudo sob controle. E estar onde é necessário”. A frase é do capitão Francesco Schettino, em entrevista concedida a um jornal tcheco (“Dnes”) em 2010. Já em 2011, neste ano, e mais precisamente no início desta semana, ele escorregava “acidentalmente” em direção a um bote que o levaria para longe do navio Costa Concordia. Enquanto isso, o transatlântico lentamente afundava com tripulantes e passageiros a bordo.

 Transatlântico Costa Concórdia

Transatlântico Costa Concórdia

O poeta Fernando Pessoa, verdadeiro sábio, sacou tudo isso quando escreveu seu “Poema em Linha Reta”:

Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado,
Para fora da possibilidade do soco;
Eu que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu que verifico que não tenho par nisto neste mundo.

Toda a gente que eu conheço e que fala comigo,
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu um enxovalho,
Nunca foi senão – príncipe – todos eles príncipes – na vida…

Quem me dera ouvir de alguém a voz humana,
Quem confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,

Arre, estou farto de semideuses!
Onde há gente no mundo?

Então só eu que é vil e errôneo nesta terra?

Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos – mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que tenho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.

Antes de uma pelada não é difícil encontrar quem diga aos quatro ventos que vai matar a bola no peito e resolver o jogo; “Só jogo truco apostando dinheiro! Ganhei campeonato do centro acadêmico na faculdade”, dizem alguns para os sobrinhos de 9 anos; ou, então, comum ouvir os brados do outro que, caso tomasse o timão para si, colocaria a embarcação pra deslizar no mar – fácil como colocar um patinho de borracha para boiar banheira: “Yo no soy marinero, soy cápitan”.

Pura empáfia. É claro, todo mundo quer ser capitão, e, afinal, ninguém quer ser se sujeitar a ser um mero operador de embarcação ou então a ficar limpando o convés. É o desejo humano de poder, sem observar as virtudes necessárias para seu exercício. Mas, quando o tempo aperta, a tormenta se avizinha, o banco de areia se aproxima perigosamente ou a manobra matreira não sai exatamente como o planejado, a responsabilidade se torna esmagadora. É neste momento, então, que as condecorações são prudentemente jogadas ao mar. Todo mundo quer ser comandante se puder saltar do barco a qualquer tempo.

"Narciso", de Caravaggio

"Narciso", de Caravaggio

Um navio afundando vira uma espécie de estado de guerra que se encontra dentro das fronteiras de um estado social. É a tensão entre a selvageria e a civilidade. Grandes acidentes certamente ocasionam a aproximação dos homens, que se unem para melhor reparar os danos. Ao mesmo tempo, é nas catástrofes que a essência aflora, o instinto dá suas caras e então podemos realmente medir o quanto de urbanidade e civilização cada um de nós conseguiu absorver.

Enquanto em plena luz do dia se comiam trufas e ostras na costa italiana, durante a noite se disputava à cotoveladas um lugar no bote (pra quem duvida, leia esse relato: http://www.jcnet.com.br/noticias.php?codigo=228751). Por outro lado, consigo imaginar os músicos do Titanic em frente a uma platéia desesperada e, sem aplausos, tocam seus instrumentos, até que o mar engula por completo a embarcação. Isso sim é glória à civilização: “Mozart, até que as ondas nos separem!”. Acabada a sinfonia, voltamos ao salve-se quem puder.

Mas os heróis não foram, não são e não serão os capitães, nem mesmo os comedores de trufas, coitados. Capitães, quando necessário, preferem ir à deriva ou se meter debaixo dos lençóis; passageiros, reféns do acaso e do desastre, apenas buscam salvar suas vidas.

Quem, então, recupera a dignidade? Um marinheiro campano durão que se encontra no continente, um tripulante peruano de sobrenome Morales, talvez um músico.

Gregorio De Falco grita “Vada a bordo, cazzo!” para o mundo inteiro, frase que ressoa em cada ouvido humano. Não é à toa que sua mulher Rafaella deu a seguinte declaração: “A coisa preocupante é que pessoas como o meu marido, que simplesmente cumprem o seu dever a cada dia, viram rapidamente heróis e celebridades neste país. Não é nada normal. (…) Há tantos marinheiros campanos que são como De Falco dos quais ninguém fala, tantos marinheiros valentes que não se comportam como o comandante Schettino e não merecem esse rótulo”.

A voz imperativa de De Falco é como um pesado martelo da consciência, que insiste em nos lembrar que ainda esperamos um pouco de virtude nesse mundo. Não adianta adiar: um dia inesperado, num cruzeiro, num incêndio, no trabalho, na rua – enfim, um dia qualquer – esse martelo poderá nos golpear, em alguns com mais e em outros com menos força, e então que se verá quem possui os brios para contornar a situação ou aguentar o sopapo. Sejamos, então, um pouco mais como os marinheiros heróis, e um pouco menos como os capitães medrosos.

A pólis não é para os pobres!

               “Não é pela razão, é pelo sofrimento.” Assim o Coordenador de Políticas sobre Drogas da Secretaria de Estado da Justiça e da Defesa da Cidadania, Luiz Alberto Chaves de Oliveira, considera possível a resolução do problema que assola a Cracolândia há décadas.
               Aparentemente, os governos municipal e estadual consideram a problemática do crack como algo puramente criminal; como um bando de marginais de caráter frouxo que se rendem ao uso de entorpecentes. O problema da droga só pode ser o usuário.Baseando-se nisso, utilizam-se da opressão e da violência para afugentar os marginalizados do local.
              Ao analisar o processo de “revitalização” do centro de São Paulo não se nota qualquer preocupação ou avaliação do elemento sociológico que compõe a vida da população de rua da cidade. Mais do que isso, evidencia-se o total descaso com esses indivíduos, que, há muito tempo, foram renegados pelo maquinário elitista que domina a cena política do estado desde a década de 90, coincidentemente, o teórico início da colonização daquela área pelos usuários.
               Enquanto Benito Kassab e Adolf Alckmin se vangloriam da melhora ilusória da imagem da região central da cidade, percebe-se que o custo para isso foi a limpeza da população, via bancos anti-mendigos, cassetete, camburão, sob a alcunha de revitalização. A democracia cristã brasileira ignorou, mais uma vez, os direitos daqueles cidadãos, afinal a pólis não é para os pobres.
               Mas o que mais impressiona em tudo isso é a afonia popular e da imprensa. Talvez considerem que a cidadania não passa a noite ao relento no centro da cidade, não passa fome todo dia e não vê o crack como alternativa para abreviar a dor de sua existência. Torçamos todos, então, para que não queiram “revitalizar” nosso bairro, nossa quadra, pois pode ser que nesse momento também não tenhamos uma voz para nos defender.

Inaugurando 2012

Como diria Vandré: Pra não dizer que não postei no blog…

Segue a inauguração do espaço!

CAATINGA

A vós entrego aurora;
em tudo insuflo ardor.
Logo alumbro as trevas
e vos retiro o temor.

Lá porto minha coroa,
feita de puro calor.
E, com cálido reinado,
à existência dou verdor.

Cá seu manto faz sentir,
com o solo a se abrir
e pessoas a partir.

Teu cetro cheio de luz
para longe nos conduz,
pois árido tudo reduz.

Enquanto isso, tudo continua na mesma: o de cima sobe e o de baixo desce!

Acabei de ler uma crítica do professor Boaventura de Sousa Santos, da Universidade de Coimbra, sobre a crise em Portugal e como o sistema capitalista relaciona-se com a atual conjuntura (mesma postura de sempre). Em resumo: o topo da pirâmide (que não é o Estado, penso que este é apenas instrumento) continua no poder e brincando com as vidas alheias, para desfrutar de seu iate em Monaco, sua casa de veraneio em algum ilha do pacífico e por ai vai!

Segue o link: colunaMostrar.cfm?coluna_id=5256

E com essa história de abutres (urubus), só pude me lembrar de Chico Science e Nação Zumbi!

Corpo são, mente enferma

Por Thiago

"A Pele que Habito", Filme de Almodóvar

"A Pele que Habito", Filme de Almodóvar

A pele é realmente fantástica: é uma camuflagem, uma materialidade, uma fantasia, uma aparência, um significante que pode esconder o significado. Mas o que, de fato, habita nossa pele?

O mais curioso – ou desesperador, para outros – é que, se dependermos exclusivamente da natureza, não podemos dispor de nossa pele, não podemos abrir mão de como somos externamente. Mudanças naturais são possíveis, obviamente, mas comumente escapam ao nosso controle e dificilmente, quando propositais, chegam ao ponto de tornar alguém irreconhecível.

Calma pessoal, não é preciso chorar e sair quebrando todos os espelhos da casa. É claro que o atual estágio da medicina possibilita definição abdominal sem um exercício sequer e implantes de silicone nas nádegas. Alguns até viram Michael Jackson após algumas horas no bisturi. Ah, o milagre da ciência!

Antes que fiquem ofendidos ou pensem em me jogar na fogueira, quero ressaltar que não estou crucificando ninguém que já fez ou é a favor de procedimentos estéticos.  Pelo contrário, se a pessoa se sentir feliz ou mais realizada porque corrigiu alguma “imperfeição” (como se a natureza incorporasse ou pensasse sobre esse conceito), ou porque se sentirá melhor, acho ótimo. O que vale, neste caso, é a autoestima e a felicidade pessoal. Opto pelo clichê: “a pessoa tem que se sentir bem consigo mesma”, dizem por aí. Concordo.

Mas o que, afinal, é se sentir bem “consigo mesmo”? Chama a atenção que o cuidado extremo com as aparências externas camufla, muitas vezes, a reflexão daquilo que é interno. Isso mesmo, compramos os livros pela capa. É como um esquecimento proposital: cuida-se do corpo para não se cuidar da mente. Não é papo de recalcado ou de gente feia com dissabores da vida: uma necessidade estética permanente e obsessiva é uma felicidade efêmera. Nem vou entrar na discussão se durante a vida somos felizes com momento de tristeza ou, como quer Heidegger, se somos eternamente angustiados com momentos transitórios de felicidade – essa discussão fica para outro post.

O que importa é que diante dessa obsessão a felicidade depende exclusivamente do constante agarrar das coisas externas, como um macaco pulando de um galho para o outro. Fatalmente deixarão de segurar em um ou outro galho, e o chão estará a uma altura considerável: eis um tombo monumental. Em outras palavras, a felicidade para aquele que tem cuidado compulsivo com o externo depende, exclusivamente, daquilo que é efetivamente externo: pode parecer redundante ou tautológico, mas depender de coisas que estão fora de nosso alcance e controle para sermos felizes é arriscar-se demais à infelicidade.

Voltando brevemente ao papo da “imperfeição”, lembro que a natureza não incorpora ou pensa sobre esse conceito. Isto significa e, além disso, demonstra, que a idéia “perfeição” ou “imperfeição” é, na verdade, um produto humano. Se quisermos pensar um pouco mais sobre isso, é uma construção cultural (e, portanto, humana) que se baseia na comparação de coisas, ou seja, já é reflexão – só há perfeição se houver um modelo, e esse modelo varia historicamente e socialmente. Me parece que o modelo de perfeição em voga é, então, um trabalho ideológico, já que é globalizado, e molda e contamina o mundo inteiro.

Quadro de René Magritte

Quadro de René Magritte, "Le Faux Miroir"

Não é muito lembrar que os gregos, no século IV a.C., continham uma divisa no templo de Delfos (do deus Apolo, da sabedoria): “Conhece-te a ti mesmo”. Vejam bem, meus caros e minhas caras, se trata de uma tentativa de, ao menos, realizar um exercício de reflexão, de conhecimento de si – e, por quê não?, dos nossos semelhantes. Sócrates e Platão tentaram tornar o lema popular, sabendo, mesmo assim, que a missão não seria fácil. Para Sócrates, de fato não foi: condenado à morte pela cidade, bebeu cicuta.

“Corpo são, mente sã”? Raridade. O poeta Juvenal pediu que os romanos orassem por uma mente sã num corpo são, necessariamente nesta ordem. O que se vê por aí é a apropriação e interpretação indevida do trecho.

Não se trata de hipocrisia, apologia à feiura, ataque à estética contemporânea ou então um apelo desmedido à introspecção e ao cultivo intelectual, mas simplesmente provocações. E elas habitam minha pele.

E você, já pensou sobre a pele que habita?

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